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Rede Estadual Primeira Infância de Mato Grosso do Sul (REPI-MS)

Babás e os riscos da ajuda demais

cuidadoraGQuando meu amigo me perguntou se a gente não tem babá por questões financeiras ou por convicção, respondi “um pouco dos dois”. Seria bom ter mais ajuda de vez em quando? Seria. Principalmente com as questões da casa. Mas em relação às crianças, no fundo, acho bom de vez em quando ficar sem escolha. Sabe por quê? Porque sem alternativa, você sai da zona de conforto e não se acomoda. Dos vários desafios diários que enfrentamos como pai e mãe que trabalham fora temos também dias de buscar e levar na escola, um “problema” que traz junto a solução. O compromisso impede que a gente se dedique cegamente à causa errada.

Vida de filho não é feita só de cafuné e diversão. Lições são tiradas do contato proporcionado por atividades comezinhas, pela rotina estafante no vaivem das obrigações. Elas também nos definem como pais.

A comodidade ou a facilidade da ajuda demais pode fazer com que muita gente terceirize todos os cuidados com o filho, como se fosse parte do pacote doméstico com o qual não quer se preocupar. Essa cultura está tão arraigada que chega a causar surpresa entre algumas profissionais do ramo a atitude de pais que assumem os filhos, aceitam ajuda, mas não a ponto de serem substituídos.

Certa vez, participamos de um churrasco na casa de campo de amigos dos amigos. As crianças iam tomar banho depois da piscina. Para que os pais continuassem a conversar e beber à vontade, a turma de babás presentes ao evento se encarregaria das pequenas, o que incluía nossa caçula então com 3 anos. Ora, nunca tínhamos visto aquelas moças de branco. Meu marido era o único responsável no banheiro cuidando da própria filha e foi alvo de olhares ensimesmados e, depois, de comentários quase indignados.

Vê se pode, o pai fez questão de dar banho!

A rotina em torno de uma criança é cansativa. Tem uma idade, quando começa a andar, que a gente tem a nítida impressão de que nunca mais vai sentar, dormir ou descansar. Se estiver só, pior ainda. Numa casa, as pessoas que nela habitam podem ser forças que se equilibram. Uma babá ou empregada amorosa pode arrefecer a batalha perdida de uma mulher com um homem ausente demais, compensar a insegurança da mulher, reduzir o estresse do pai. Amenizar disputas irritantes entre irmãos, ainda mais se forem muitos.

Contar com alguém de confiança e manter disposição para jamais abrir mão do filho não são situações autoexcludentes. Crianças demandam muito atenção. Ajuda passa a ser crucial. Para muitos, uma questão de sobrevivência. A falta total de colaboração faz muita gente pifar, literalmente, ainda mais no contexto de um Estado incompetente na oferta de creches e escolas tempo integral em quantidade e qualidade suficiente para atender às famílias brasileiras.

É inaceitável tudo isso.

Mas agora eu quero chamar atenção para a fartura paralisante, que começa num ritmo sutil e vai num crescendo até tomar dramaticamente todos os instrumentos dessa orquestra no movimento final.

Tem gente pra lavar, passar e cozinhar.

Que ótimo!

Tem gente também para levar na escola por mim porque não posso.

Ainda bem, não é?

Olha que sorte, tem gente também para dar banho enquanto estou em casa lendo um livro. Nunca tenho tempo para isso.

Sei.

E tem alguém para dar a comida porque estou cansada.

A-ham.

Pensando bem, se alguém levar ao pediatra no meu lugar, eu não vou me atrasar para o trabalho e não vou ter que me explicar.

Claro…

É só uma festinha, ele nem liga se for eu ou outra pessoa a levar. Brinca o tempo todo.

Conta outra.

Expliquei direitinho o motivo de eu não ir ao evento da escola, e meu filho compreendeu. Ele passou dessa fase de fazer questão da minha presença.

Então eu sinto muito. Você está perdendo o seu filho.

Tem batalha que vale a pena comprar, e cuidar dos filhos é a maior delas.

A obrigação nos tira um pouco a liberdade mas dá a oportunidade de nos tornamos pessoas comprometidas com a vida dos nossos filhos. Para nossa relação de longo prazo, pode parecer irrelevante se sou eu ou outra pessoa a buscá-las na escola alguns dias da semana, se sou eu ou não que boto para dormir, mas a verdade é que, para mim, faz diferença. Esse é um problema que eu gosto de ter. O compromisso é o fio terra que não deixa você perder a sintonia com seu filho. Ele se soma ao desejo de estar junto.

Os parâmetros sobre o quanto podemos e queremos fazer são individuais. É preciso não julgar. Esses critérios foram internalizados pelo que somos, gostaríamos de ser e também pelo que estamos nos tornando na prática. Há situações irremediáveis, transitórias, perenes ou simplesmente recorrentes. Quem somos nós para saber o que se passa entre as paredes de um lar? É bom não comparar.

Costumo dizer que certas pessoas têm vocação para heróis. Vieram ao mundo para se dedicar a causas coletivas e talvez criem seus filhos dentro dessa realidade em que as crianças nunca serão os protagonistas de fase nenhuma na vida delas. Eu não conseguiria.

Uma cena do filme O discurso do Rei (2010), com Colin Firth no papel do príncipe Albert, filho do rei Jorge V, retrata bem essa situação. A história, uma emocionante cruzada pessoal do príncipe contra a gagueira, revela também como traumas da infância estavam na origem de sua insegurança. Numa dessas cenas em flashback, aparece Albert e seus irmãos, todos crianças e enfileirados, para que os pais, rei e rainha da Inglaterra, pudessem fazer a “inspeção diária”. A gente ri e se compadece daquilo ao mesmo tempo. Dá um alívio danado não ser monarca da Inglaterra, mas tem muita gente por aí agindo como se fosse.

Saber exatamente onde estamos errando é um processo sujeito a revisão constante.

Os fabricantes de inseticida levaram um bom tempo para perceber que, enquanto eles mantivessem o borrifador na horizontal, haveria pessoas lançando o veneno na própria cara. Um dia, alguém decidiu criar uma trava, que muitas vezes emperra por defeito de fabricação. Aí veio outro alguém com a genial ideia de colocar o furo para cima, evitando de vez um típico acidente doméstico.

Na pressa das escolhas diárias, agimos um pouco como esses fabricantes, sem saber que acidentes aparecerão mais à frente. Vamos acertando os passos ao perceber onde botamos trava demais e por onde o veneno vazou. E muitas vezes a reação dos filhos só confunde, seja a criança aparentemente feliz por ficar com uma babá 24 horas ou minha filha menor que nunca parece estar satisfeita. Ela tem o desplante de dizer que eu não gosto mais dela quando paro de brincar para sair de casa de manhã. Vai trabalhar com um barulho desses…

…..

Quando estavam para ser pais pela primeira vez, foram assaltados por todas as dúvidas típicas deste período. Sem ninguém da família disponível para auxiliá-los, decidiram contratar uma enfermeira especializada em recém-nascidos. Foram atendidos por uma senhora adorável, experiente, cuja referência eram inúmeras cartas gentis de mães gratas pelos serviços prestados. Durante 40 dias, contaram com ela 24 horas por dia, duas semanas seguidas até a primeira folga.

Na primeira consulta ao pediatra, a mãe ficou incomodada. Havia uma trupe de três adultos escoltando um bebê. Pra quê? Pediu para ela esperar do lado de fora. No dia seguinte, uma piada acenderia a luz amarela. A enfermeira ligou e disse que não iria mais trabalhar. Preocupada, a mãe chorou. Teria sido por causa da consulta? Fizera algo errado? Mas aí o incômodo ficou pior: o que será de nós sem ela? Era tudo uma brincadeira. Ela foi trabalhar, mas a piada acabou sendo muito útil. Um alarme tinha disparado para o casal.

Findo o contrato, a mãe agradeceu a dedicação. Graças a ela, descansou. Encarou com mais energia os primeiros dolorosos dias pós-parto. Doou em abundância todo o leite que sobrou. Mas era hora de tomar as rédeas da vida da filha ao lado do marido, que, de protagonista, tinha sido relegado a coadjuvante em certas ocasiões. Afinal, havia alguém que sabia muito mais entre eles. Haveria muitas dúvidas ainda a dirimir à frente, muitas situações em que não saberiam como agir, mas as respostas apareceriam junto com as questões no meio do caminho. Valeu a experiência para nunca mais. A segunda filha chegou sem esquemas especiais. Essa mulher descobriu na prática que ajuda demais também atrapalha.

E essa mulher sou eu oito anos atrás.

Para saber mais/ entrevista

Sobre o tema desta coluna, fiz algumas perguntas, por email, ao psicólogo e psicanalista Cláudio Saltini, tradutor de um livro inédito de Jean Piaget, o “pai da psicologia infantil moderna”. O livro, “Relações entre a afetividade e a inteligência no desenvolvimento mental da criança” (Wak Editora), é resultado dos manuscritos de último curso ministrado por Piaget na Universidade de Sorbonne (Paris). O material foi entregue à Saltini pelo próprio Piaget um ano antes de sua morte. A obra, traduzida por Saltini e Doralice Cavenaghi, chega ao Brasil antes do mercado europeu. Membro fundador e ex-presidente do Centro de Estudos do Crescimento e Desenvolvimento do Ser Humano da Faculdade de Saúde (USP), Saltini afirma que pais que delegam demais e se preocupam apenas em agradar formam seres humanos inseguros.

Qual a sua opinião sobre essa onda de babá escoltando, o tempo inteiro, uma família, às vezes com uma única criança?

A babá não deve estar o tempo todo cuidando de uma criança, pois ela é uma ajudante da mãe. Nada de mais natural que a mãe receba ajuda, pois muitas vezes ela tem mais de um filho e precisa de fato de uma colaboradora para tomar conta destas crianças, com a higiene, a alimentação, os cuidados, entre outros. Porém, uma criança pelo menos até os seis anos precisa de muito mais. Precisa da interação com pessoas, pais, parentes e com os objetos do mundo civilizado. A criança precisa ter prazer em conviver. A educação de uma criança até os seis anos não consiste apenas em aprender a ler e escrever, mas principalmente em deixá-la lidar e se familiarizar com o contexto que a circunda, de forma a construir seu conhecimento. Para aprender, a criança utiliza a linguagem, a imitação, o desenho, a representação e tudo isto deve ser lhe apresentado. Quem educa a criança principalmente são seus pais, porque é por aí que se desenvolve a afetividade; a mãe como continente e o pai, como orientação educativa. Aqueles pais que delegam a educação à babá perdem a oportunidade de criar vínculos mais estreitos com os filhos.

Que tipo de consequências surge dessa entrega da educação do filho no consultório de um psicanalista?

O que a psicanálise observa são consequências muito negativas nesse comportamento, tanto no adulto como no adolescente. Crianças educadas por babás e por pais que não fazem outra coisa a não ser satisfazer seus desejos tornam-se mais dependentes, seres humanos imaturos, irresponsáveis e incapazes de enfrentar dificuldades. Não se responsabilizam pelos atos que praticam. O assunto é complexo. Para explicar melhor, precisaríamos de uma verdadeira conferência ou de um curso para os pais, onde eles pudessem entender a responsabilidade de uma educação para qual a maioria das babás infelizmente não tem formação.

Que ensinamento de Piaget se aplicaria a esse drama tão comum de pais ausentes demais?

O que Piaget observa é que o ser humano constrói estruturas de pensamento alimentadas por afetividade, sem isso, o humano não evolui. Nós somos constituídos por estruturas; a mente progride em função de frustrações e soluções de conflitos, buscando cada vez mais estar reequilibrada. O ser humano constantemente se desequilibra e recria novas estruturas para se reequilibrar. É um processo contínuo de busca da solução de problemas e conflitos. Portanto, devemos permitir que a criança encontre a solução de seus problemas, colaborando e apoiando-a, mas não resolvendo sempre por ela. À medida que ela se torna mais autônoma, podemos deixá-la resolver problemas mais complexos.

Fonte: Isabel Clemente – Revista Istoé

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